9 de maio de 2008

Dilúvio...

Olho pra cima.

Em minha vista apenas a escuridão de uma nuvem e a melancolia de sua chuva. Confundo o chão com o céu enquanto o meu horizonte se torna cada vez mais distante de mim. Dias e dias que do alto desce essa água, molhando a terra, transformando em lama.

Inundado.

Desesperado procuro por um lugar seco. Fugindo da terrível sensação de cair, de afundar, de aos poucos me tornar sujo, escuro, junto à lama. Afogando em meio a esse mundo totalmente coberto por essa mórbida frieza.

Dilúvio.

Não consigo sentir o chão. Será que ele ainda existe? Será que ele já existiu? Não me lembro mais. Agora só penso em nadar, em quanto tempo vai passar até a chuva parar. Quarenta horas? Quarenta dias? Não importa: provavelmente não sobreviverei até lá.



Ray gosta de chuva, apesar de tudo.

7 de março de 2008

Rebobinar...

Eu ainda lembro do que não vivi. Lembro, relembro, e sinto saudades do que ainda não senti. Queria que tudo voltasse a ser como eu sei que não se passou por mim.

Como aquela música que toca na minha vitrola, nos discos empoeirados que outrora estavam aos cuidados da minha mãe. Canções que me tocam toda vez que as toco, letras que me encantam nas vozes de quem as cantam.

Queria minha vida de volta como era uma radio-novela, sendo contada por fabulosos artistas, com os quais não existiam erros, transformavam-os em adaptações, pois não haviam edições. Quero viver minha vida ao vivo.

Que eu a faça uma escultura! Com todas as perfeições e defeitos que eu não consigo mostrar.

Que eu grite: AÇÃO! E dela surja uma aquarela, com todas as cores que eu possa pintar.

E enfim, parar. Tirar fotos de cada ângulo que eu consiga, juntá-las e lembrá-las quadro a quadro, como um filme mudo no silêncio da minha mente. Em preto e branco, como são os meus sonhos.

Que o meu futuro seja exatamente como eu lembro.

22 de fevereiro de 2008

Improvável Texto...

Tentei escrever um texto, não consegui. Cada palavra que escrevi no papel era como uma agulha em mim, cada rima um corte no coração, cada verso guardava a tristeza de uma inversão. Toda a alegria que mostrava era inventada, forjada para me fazer esquecer de sentir tamanha solidão. Só estava, só me sentia, sofria sentindo o frio que a muito tempo não me abatia, e que ecoava por cada canto enquanto no mesmo quarto eu chorava.

Tentei escrever, não consegui, mas senti que meu coração batia por isso. Infinito lirismo me forçava a escrever cada vez mais, não importasse quais ou quantas dores me traz. Isso sim me faz mais, me dá conforto ao saber que venci os confrontos que em silêncio enfrento. Imensos pensamentos nos quais estou imerso.

Tentei escrever, consegui, e então, eu sorri.




Ray escreveu esse texto.

14 de fevereiro de 2008

Crônica de um dia político...

- Número 36?!
- Presunto, professora!

Lembrei-me da terceira série hoje quando fui no local conhecido como "Central do Cidadão" tirar alguns documentos que, por preguiça ou inconsciente repulsa de estar me tornando adulto, ainda não tinha tirado, tais como 2ª Via de Identidade, Título de Eleitor e Carteira de Trabalho. A questão é que me vi deparado com um belo de um paradoxo social.

Vivemos num mundo e sociedade na qual todos querem ser diferentes, se sobre-sair com relação ao que os cercam. Mulheres brigam quando vão com a mesma roupa numa festa, crianças decoram suas agendas, bolsas e outras coisas com adesivos coloridos, sempre pra se sentirem únicas. Toda a nossa sociedade se desenvolve com essa cultura: individualidade.

Mas ao mesmo tempo em que queremos ser diferentes uns dos outros, sempre acabamos nos relacionando mais profundamente com outros "indivíduos" com as mesmas características que as nossas. Os famosos rótulos, por mais que odiados por todos, nunca deixarão de existir por esse motivo.

E se abstrairmos mais um pouco, chegaremos ao meu dia hoje:

- Oi! Eu gostaria de fazer minha Carteira de Trabalho e dar entrada na minha Carteira de Motorista.
- Muito bem. Trouxe o seu CPF? Sem ele não poderemos fazer nada.

No final das contas nossos esforços para sermos diferentes, de termos nossas individualidades, não foi de tanta ajuda assim. Ainda somos apenas mais um número de CPF no PC do Ministério da Fazenda, mais uma estatística no Jornal Nacional, mais um no meio da lista telefônica, mais um ponto no meio do mundo, e ninguém quer saber quem realmente somos. Pelo menos conseguimos uma coisa: temos números diferentes.



Ray é um cidadão.
Ray é igual a você.